quinta-feira, 22 de abril de 2010

[Crítica] Do Começo ao fim

Sinopse: História de amor entre Francisco e Thomás, dois meio-irmãos homossexuais.

Quando o teaser de Do Começo ao Fim foi lançado no primeiro semestre deste ano, causou espanto e prometia polêmica. A história de amor entre dois meio-irmãos parecia não ser apropriada para entrar em circuito comercial, chocando o público ao tratar de dois temas complicados: homossexualidade e incesto. Não que estes temas sejam novidade na literatura ou no cinema mundiais. Mas em se tratando de cinema nacional...
 
O teaser que gerou polêmica. Boa estratégia de marketing.
Reunindo atores famosos como Júlia Lemmertz (interpretando a mãe) e Fábio Assunção (interpretando o pai de um dos garotos) e personagens com um padrão de vida elevado, o filme tenta, de maneira leve, fazer o que novelas da Globo ainda não conseguiram: mostrar homossexuais de forma sóbria e inseridos na sociedade.

A história gira em torno de Francisco (João Gabriel Vasconcellos) e Tom Tom (Rafael Cardoso, minissérie Cinquentinha), dois irmãos, de pais diferentes, que desde cedo começam a demonstrar interesse um pelo outro, culminando com uma paixão ardente na idade adulta. Tudo levado de maneira muito sutil. Sutil até demais, chegando a quase eliminar o conflito no filme. Um dos poucos momentos de confrontação se dá quando o pai de Francisco questiona a mãe sobre as atitudes do filho. Na maior parte do tempo, tem-se a sensação de que a história se passa em um mundo paralelo onde os dois rapazes são os únicos gays do planeta e seu relacionamento é aceitável (desde que não mencionado em voz alta).
A direção e o roteiro são fracos, com cenas de câmera lenta desnecessárias e diálogos compreensivos demais para uma mãe do início dos anos 90 e que transformam Júlia Lemmertz quase em uma Virgem Maria, compassiva e protetora. A pretensa precocidade dos garotos, outro ponto de choque, algumas vezes nada mais é do que o comportamento natural da idade como cócegas e falar a palavra “pinto”.
A história poderia ser atemporal, mas um comentário sobre o governo Collor a insere na linha do tempo, causando outro tropeço, a caracterização de época. O figurino não condiz com a data e, em uma cena Tom Tom, ainda criança, chega a usar uma camisa da WWF em plenos anos 90!
Excluindo essas questões, Do Começo ao Fim, assim como Brokeback Mountain (de Ang Lee, 2005) tem dois públicos distintos: o hétero e o homossexual. Para o público hétero já há certa resistência em engolir a simples possibilidade de amor entre dois homens. Ainda mais sendo homens bonitos, atléticos, ricos, inteligentes, bem sucedidos e nada efeminados (em nada se encaixando no estereótipo de programas como Zorra Total e A Praça é Nossa ou de piadinhas do CQC). O fato de os dois serem irmãos torna o filme ainda mais repelente.
Por outro lado, excetuando a questão do incesto, estes mesmos atributos dos protagonistas vão de encontro ao modo como o gay atual se vê (ou faz questão de querer se ver), atingindo em cheio o interesse do público homossexual. Este mesmo público, devido às especificidades do relacionamento entre dois homens, exige cenas amor diferentes. E nisto reside o mérito do filme ao encher uma sala de cinema com um público que quer ver cenas apaixonadas mais quentes do que um romance correlato heterossexual (incluindo uma ótima cena de falta de jeito com mulheres pelo personagem Francisco) ou cenas e intimidade que só poderiam ser protagonizadas por dois homens, como o momento de carinho enquanto Tom Tom faz a barba.
Dito isto, dependendo da orientação sexual, o expectador já sabe se quer ou não ver o filme.

Cena de intimidade fora do convencional pela manhã: a hora de barbear.
Julia Lemmertz e  os filhos. O arquétipo da compreensão.



Do Começo ao Fim
Brasil/2009
Direção e Roteiro: Aluizio Abranches
Elenco: João Gabriel Vasconcellos, Rafael Cardoso, Júlia Lemmertz, Fábio Assunção, Louise Cardoso
Duração: 90 minutos

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