A palavra “robô” vem do tcheco robota e significa “trabalho forçado”, que era o que os personagens de uma peça de Karel Čapek faziam de forma mecanizada. Com a criação do termo, na década 1920, não só o mundo da tecnologia ampliou seu vocabulário como a sétima arte aumentou sua paleta de temas. Substitutos é mais um representante deste tipo de cinema de ficção científica.
Com o surgimento da robótica, a Humanidade passou a se preocupar com a sua própria condição e com a vontade deixar claro sua diferença em relação às máquinas, apesar de estarmos acostumados a ver robôs humanóides desempenhando as mais variadas tarefas em desenhos como os Jetsons e em filmes como Blade Runner. Mas isto se restringe à ficção. Na vida real, o Criador, neste caso, não quer se assemelhar a Criatura. Mesmo com nossos corpos sendo cada vez mais alterados pela tecnologia, seja por questões estéticas (cirurgias plásticas), seja por questões de saúde (como prótese de membros), paira sempre a questão do limite entre o natural e o artificial.
Na trilha da transposição das HQs para as telas (vide X-Men, Homem Aranha, Dragonball etc), Substitutos traz para o cinema a história adaptada da graphic novel The Surrogates, de Robert Venditti e Brett Weldele, publicado em cinco volumes pela editora Top Shelf, nos EUA e, no Brasil, pela editora Devir.
Com Jonathan Mostow (Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas) na direção, pode-se contar com muita ação e barulho em cenas de perseguição, tiroteio e destruição. Com Bruce Willis no elenco, pode-se esperar um “filme Bruce Willis de ação” (Duro de Matar, Hudson Hawke, O Quinto Elemento, Sin City...). O fato de tratar de robôs vira os efeitos especiais a favor do filme, tornando a artificialidade dos movimentos dos personagens aceitável, por se tratarem justamente de máquinas.
No mundo de Substitutos, em um futuro não muito distante, as pessoas já não saem mais às ruas. De suas casas comandam remotamente, por meio de impulsos neurais, robôs que executam todas as tarefas para seus donos. Com isso, cortar um dedo, pegar uma gripe ou quebrar o pescoço em um acidente de carro já não impõe mais risco: basta consertar ou comprar um novo “substituto”, uma vez que os danos não são sentidos por quem opera a máquina. Mas, no momento que isso começa acontecer e um ser humano morre em função da destruição de seu “substituto”, o agente Tom Greer (Willis) e sua parceira Jennifer Peters (Radha Mitchell) entram em cena para investigar o caso.
É de se esperar que, em um mundo padronizado desses, haja pessoas que se oponham vigorosamente ao padrão estabelecido e uma sociedade de seres humanos que vivem sem se valer de “substitutos” torna-se suspeita de envolvimento nos crimes.
Assim como em outros filmes, tudo se passa nos EUA, mas sabe-se, por um diálogo ou outro, que o mesmo acontece em escala global.
Os temas abordados podem levar o expectador a ter a impressão de que já viu esse filme. Pessoas vivendo vidas artificiais ao invés de sentirem sensações por si mesmas: o dilema de Matrix. Seres humanos contra máquinas: a guerra de O Exterminador do Futuro. O questionamento a respeito das conseqüências do avanço tecnológico: os “precogs” de Minority Report. A mecanização e a frieza nos relacionamentos: os “mecas” de Inteligência Artificial. Isso para citar os mais recentes.
Mas, num ponto, o filme apresenta algo novo. O debate sobre até onde o ser humano consegue ir sem perder o controle, sem perder a noção de si mesmo, e o temor de que a tecnologia “caia em mãos erradas” (presente nos filmes supracitados) passa da esfera militar, policial, doméstica ou comercial para a esfera da estética de do prazer nas mãos da população comum. Quem não quer ter um corpo bonito, não ter medo de doenças ou de machucados?
Em uma cena do filme o noticiário informa que, graças à “Substituição”, os preconceitos acabaram, levando à diminuição da violência. Boa ironia num mundo onde todos são altos, magros, bonitos e impecavelmente arrumados. Pode-se aceitar que um ricaço playboy tenha relações (ainda que sem ter ciência disso) com uma loira provocante operada por um gordo feioso a partir de sua casa. Desde que tudo fique na aparência. Os corpos biológicos, tristes e normais, devem permanecer trancafiados em casa. Quem usa o próprio corpo ao invés do “substituto” é visto com maus olhos (afinal, quem nunca olhou torto para alguém desleixado?).
Não há como não rir quando Bruce Willis, ou melhor, seu “substituto”, aparece em cena, mais novo (sem poros, como nas capas de revista atuais), engomadinho e de cabelinho (!) arrumadinho.
Uma boa metáfora da questão é o salão de beleza onde trabalha a esposa do agente Greer: não há cortes de cabelo ou maquiagem, mas sim, peles e cabelos sintéticos aderidos à carapaça metálica dos robôs. Tudo normal, como quem aplica botox ou implanta silicone.
Mas é um filme de ação, sem muito tempo para reflexão entre uma destruição e outra. Mas garante a diversão, apesar de o roteiro padecer de suspense, sendo possível antecipar bastante as cenas, inclusive o final.
|A HQ publicada pela Devir
Substitutos (Surrogates)
EUA/2009
Direção: Marcos Andrade, Julia Martins
Roteiro: John Brancato, Michael Ferris baseado na HQ de Robert Venditti
Elenco: Bruce Willis, Radha Mitchell, James Crowmell, Rosamund Pike, Boris Kodjoe
Duração: 88 minutos


Nenhum comentário:
Postar um comentário