domingo, 25 de abril de 2010
[Literatura - Crítica] Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil
Eis que, via Twitter, tomei conhecimento do livro do jornalista Leandro Narloch, Guia Politicamento Incorreto da História do Brasil. Um belo dia, resolvi sentar-em em uma megastore qualquer para lê-lo e ver do que se tratava.
O livro já atinge as primeiras colocações nas listas de mais vendidos e, como qualquer coisa que exponha "Politicamente Incorreto" no título, a ideia é ser sarcástico, engraçadinho, ao mesmo tempo em que passa dados históricos e tenta corrigir algumas incoerências ensinada nos bancos escolares e tidas como verdades pela maioria da população. Está lá que Zumbi, assim como outros membros do quilombo dos Palmares (e, dentre eles, brancos e índios) tinha escravos e que seu reino não era um molde de democracia; que os próprios índios ajudavam os portugueses a capturar e escravizar outros índios; que a Tríplice Aliança não foi títere da Inglaterra na Guerra do Paraguai nem este país era uma potência aflorada no coração da América do Sul; que Santos Dumont não inventou o relógio de pulso (nem muito menos o avião) entre outros temas de política, cultura e sociedade.
Paranaense, Narloch tira sarro até de si mesmo ao cutucar seu estado. Afinal, a intenção é ser engraçadinho e blindar-se de críticas com o "politicamente incorreto" do título (uma vez que fica fácil apontar essas críticas como hipocrisia do "politicamente correto"). Ok. Até aí, tudo bem.
Mas o capítulo que me chamou a atenção foi sobre o Acre. Como paulista de coração, mas acreano de nascimento, de família acreana e amazonense e neto de seringueiro, conheço bem a história daquelas bandas e interessei-me em ver o que o capítulo falava. Muitas informações corretas estão ali, sobre Galvez, sobre Plácido de Castro e sobre todo o período da Revolução Acreana. Mas não foram as informações que me fizeram torcer o nariz e jogar o livro de lado e decidir não comprá-lo e, sim, quando o texto passou de instrutivo a editorial, de didático a apenas sarcástico. Exemplificando: por várias vezes, Narloch conta que não só o Brasil não quis invadir o Acre como afirma que não queria a região de jeito nenhum, que ninguém queria aquele pedaço de terra. De fato, o Brasil rejeitou o quanto pôde o território, visto que não era seu e o governo não queria se envolver com outra guerra com seus vizinhos, ainda mais quando pleiteva outros territórios frente à Europa como partes da Guiana Holandesa (atual Suriname), da Guiana Francesa, da Inglesa (atual Guiana) e mesmo do Peru. Somente quando a situação já estava insustentável, com os acreanos (que, à época, eram, na maioria, nordestinos) se virando sozinhos, apenas com o apoio do governo do Amazonas (que era o mais interessado na questão) que o Barão do Rio Branco (que batiza a capital) entrou em cena e fechou o Tratado de Petrópolis.
Mais adiante, ao fim do capítulo, Narloch retoma a frase de Evo Morales, que usou para abrir o capítulo. O presidente boliviano afirmou, no momento em que este assumiu a presidência pela primeira vez, que o Acre havia sido trocado com o Brasil por um cavalo. Segundo Narloch, o Acre vale mais que um cavalo e, citando a cifra (que agora não vou me recordar), diz quanto o estado custa aos cofres nacionais e afirma que, com esse dinheiro, seria possível construir mais quilômetros de linha de metrô em São Paulo. Claro, porque não? Vamos lotear estados do Brasil pra desenvolver um estado já desenvolvido? Pra que partilha do pré-sal, né? Dê tudo logo para Rio e São Paulo e pronto. E o desenvolvimento da União?
Para um livro que se propõe a olhar pela óptica dos vencidos (já que os mitos históricos são criados por quem vence), houve uma bela derrapada em alguns parágrafos. O papel da História (bem como do Jornalismo, diga-se de passagem), é fornecer informações para que cada um desenvolva seu senso crítico. Com um ou outro comentário editorial (infelizmente, mas uma linha ou duas, apenas), 1808, de Laurentino Gomes, faz isso muito bem com a família real. Demolir a construção de mitos no processo faz parte do andamento da Teoria da História. Mas, passou disso, não se afirme "histórico".
Detalhe: o livro não despertou interesse de editoras brasileiras e foi publicado por uma editora portuguesa, com filial no Brasil.
Em tempo, a esposa de um primo meu, que é boliviana, contou-me que, nas escolas de lá, aprende-se que todos os países vizinhos tiraram um pedaço da Bolívia. O que, de certa forma, é verdade. Mas, não posso deixar de citar que a Bolívia era um pedaço do Vice-Reino (e depois da República) do Prata até que Bolívar aceitou dividir e dar autonomia à região do Alto Peru (atual Bolívia).
Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil
Leandro Narloch
História do Brasil
LeYa/2009
304 páginas
Brochura
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário