Sinopse: O advogado Gabriel começa a investigar Edward Hyde, amigo do renomado médico Dr. Jekyll.
Num momento em que os vampiros ocupam uma prateleira de destaque nas livrarias e ganham filmes e seriados de TV, vale a pena, para quem gosta do gênero, enveredar-se pelos cânones do suspense e do horror, como por exemplo, o breve livro (se comparado a outros clássicos como Frankenstein e Drácula) de Robert Louis Stevenson.
O Médico e o Monstro (The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1886) tornou célebre a ideia dos mistérios da alma humana suprimidos pelo convívio em sociedade e já foi adaptado inúmeras vezes em diferentes mídias, incluindo até uma hilária versão em HQ com o Pateta (Pateta é Dr. Jekyll, formato americano, publicada no Brasil em 1990).
Na obra de Stevenson, o leitor é levado pela história do bem-sucedido médico londrino Dr. Henry Jekyll sob o ponto de vista de seu amigo próximo, o advogado Gabriel John Utterson. O estranho e súbito relacionamento do doutor com o misterioso Mr. Edward Hyde levanta suspeitas na cabeça de Mr. Utterson. Intrigado, o advogado começa a seek a bizarra figura de Mr. Hyde. Atarracado, ligeiro e rude, Mr. Hyde transparece em sua fisionomia uma deformidade indizível e uma maldade capaz de provocar mal-estar em quem se aproxima.
O clima sombrio e nebuloso das ruas de Londres, muito bem descrito por Stevenson, faz com que o leitor entre no ar introspectivo e soturno da obra, enquanto vai sendo levado através das dores do Dr. Jekyll.
Vários fatores característicos da rigorosamente conservadora Era Vitoriana, época em que a obra foi escrita, estão presentes no texto. No contexto individualista da sociedade inglesa, Dr. Jekyll remói-se dolorosamente pelos “prazeres vis” que sente vontade de cometer e que se materializam na figura de Mr. Hyde, sua válvula de escape. É o medo que se sente quando se faz algo que não é aceito pelo resto da sociedade. E Deus castiga, pois o cristianismo está presente aqui e ali na obra.
Numa época em que a filosofia se separava das ciências (e estas se subdividiam ainda mais); em que as cidades eram repartidas e configuradas em blocos pelo urbanismo; em que as classes sociais estavam sendo definidas por novas teorias sociais e tudo o mais que podia ser esquadrinhado e separado estava sendo classificado, Dr. Jekyll, como bom médico, segue o raciocínio atomicista da época, insistindo em dividir o amálgama dos sentimentos humanos, muitas vezes controversos. Com Hyde, seu pior lado vem à tona e sua maior preocupação passa a ser manter incólume sua boa imagem frente à sociedade.
Sem o precedente psicológico aberto no século seguinte por Sigmund Freud, Dr. Jekyll não consegue compreender que algo por muito tempo reprimido, quando surge, surge com força. O surgimento de Mr. Hyde na vida do doutor não poderia ser mantido sob controle por muito tempo e a incapacidade de aceitar seus próprios defeitos faz com que Jekyll seja tragado para um remorso ainda maior.
O clima sombrio e nebuloso das apertadas ruas de Londres é habilmente descrito por Stevenson, levando o leitor a se aprofundar no ar introspectivo e soturno da obra enquanto vai sendo tragado pelas das dores e questionamentos do Dr. Jekyll.
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